Dons e Ministérios: fontes e desafios

Aconselhamento: Como se faz?

Resenha: RUTHE, Reinold. Aconselhamento - como se faz? São Paulo: Luz e Vida, 1999.
  O livro ‘Aconselhamento - como se faz?’ de Reinold Ruthe mostra com clareza a experiência prática do aconselhamento terapêutico destacando a importância de ajudar pessoas que precisam de apoio integral (físico, mental e espiritual). O aconselhamento terapêutico é um ‘processo vivo’[1] uma forma de viver e servir (therapeuo) ao próximo.
   O autor destaca a importância de dialogar, ouvir e compreender o contexto de vida do aconselhando á luz da Bíblia, e para isso o conselheiro precisa buscar conhecer e viver a palavra de Deus.


   O primeiro capítulo traz os ‘conceitos bíblicos para o aconselhamento terapêutico’ [2] como uma forma de se orientar pelos princípios bíblicos, realizado em nome de Jesus que é o verdadeiro CONSELHEIRO (Isaías 9:6). Sendo assim o conselheiro é alguém que recebe o dom ou carisma de Deus para aconselhar as pessoas, vive em oração para isso e se prepara o melhor possível para realizar esta obra tendo consciência de que Deus está no controle ministrando e curando o interior da pessoa aconselhada. Por isso o sucesso do aconselhamento terapêutico confia o poder e a glória somente a Deus, como disse o próprio Senhor Jesus: ‘sem mim nada podeis fazer’ (João 15:5).
 O capítulo cinco fala sobre o ‘estilo de vida no aconselhamento terapêutico’[3] abordando que o ser humano é uma unidade, um sistema fechado composto de corpo, alma e espírito. Através de uma análise das pessoas, pode-se descobrir o que o autor chama de ‘estilo de vida’, ou seja: quais regras ou normas de conduta regem a vida e as decisões de uma pessoa. Quando se sabe qual o estilo de vida segue pode-se compreender a ajudar a pessoa a ser aconselhada.
  O conceito de Alfred Adler estabelece cinco aspectos que caracterizam o estilo de vida que podem ser encontrados através das respostas a perguntas que levam a uma reflexão interior:
1. Como eu me vejo?[4] Qual a opinião sobre si mesmo, sua auto-estima, desempenho, saúde, complexos, dificuldade em tomar decisões, conclusões sobre si mesmo e desejos pessoais sobre o que gostaria de melhorar.
2. Como eu vejo os outros?[5]  Avaliação sobre as outras pessoas e como as tratar, preconceitos, comparações de si mesmo com outros, evitar ou distanciar-se de alguém, como pensa que os outros o vejam e quais motivos ou sentimentos determinam os relacionamentos.
3. Como eu me sinto no mundo? Como é meu relacionamento com Deus?[6] Percepção de mundo e avaliação da vida em geral e sobre Deus, fugas e medo de enfrentar o mundo e de que maneira a fé reflete em seu estilo de vida.
4. Que objetivos procuro alcançar?[7] Muitos objetivos não são assumidos ou conscientes, são reações ou intenções espontâneas que se manifestam através de sentimentos que conduzem as decisões pessoais. O alvo ou sonho a ser alcançado na vida pessoal, objetivos distantes de auto-proteção e o preço a pagar por estes alvos devem ser descobertos.
5. Com que meios e métodos tento alcançá-los?[8] Podem ser meios produtivos ou destrutivos de maneira multiforme. Comportamentos, reações, impulsos e decisões que podem testar ou levar ao objetivo.

     Descobrir o estilo de vida de uma pessoa é a melhor maneira de entendê-la e ajudá-la a se erguer e vencer traumas, medos, complexos e vícios que ainda não foram assumidos por não ter passado por uma auto-análise.

   O sétimo capítulo explica o que é um sintoma? Qual é o sentido dos sintomas?[9] trazendo como resposta que os sintomas são as reações de uma doença ou aquilo que comprova a existência de uma doença, mas não é a doença em si e deve ser entendido no contexto integral da personalidade. São ativos mesmo quando parecem passivos.
De acordo com o que o indivíduo aprendeu ou como foi preparado, irá encarar ou fugir de situações que lhe causam dor e essa expressão é o sintoma de uma doença embutida em seu estilo de vida.
O autor usa a frase ‘o fim justifica os meios’ [10] para esclarecer que os sintomas são meios ou ferramentas para se alcançar os objetivos que na maioria das vezes são fugir de situações de confronto.
O aconselhado apresenta para seu conselheiro o sintoma como sendo o problema em si, mas o conselheiro precisa olhar para cada sintoma a fim de descobrir a doença ou causa e não ater-se a ele tentando resolver o problema de imediato sem alcançar sua raiz. Para isso é preciso descobrir os objetivos do aconselhado que são motivos de tais reações ou tentativas de alcançar o que deseja.
Reconhecer a doença através da descoberta dos objetivos e orar pedindo a Deus o perdão por sintomas errados ou pecaminosos é um remédio para o aconselhado levando-o a cura e realização surpreendente.
No décimo sexto capítulo é apresentado um gráfico das responsabilidades pessoais nas ‘quatro tarefas da vida’[11] que são:
1) Trabalho e profissão. Refletir como a pessoa definiu isso em sua vida, se já se realizou, se formou ou se já sabe o que quer e está em busca de seu objetivo. De que forma o problema que está vivendo atinge esta área ou provém dela.
2) Amor, parceria e casamento. Qual é a situação do aconselhado, solteiro, casado, separado, viúvo... está se sentindo bem assim? É correspondido por quem ama. Vive alguma decepção no relacionamento ou talvez tenha errado e não assume e pede perdão. O problema pode vir desta área ou estar atingindo-a.
3) Comunhão, amizade, lazer e relacionamentos. Quantos amigos o aconselhado tem? Talvez precise divertir, praticar um esporte conviver com pessoas diferentes e fazer novas amizades. Cultivar mais os relacionamentos com parentes, amigos e pessoas de quem tem saudades. Talvez o problema esteja nesta tarefa ou refletindo-se nela. A falta de confiança no próximo traz o sentimento de solidão e este é um grande problema para quem precisa vencer uma dificuldade, o que não pode ser feito sozinho.
4) Fé cristã, relacionamento com Deus e sentido da vida. O aconselhado tem uma religião? Qual o nível de participação ou compromisso com sua fé. Talvez se sinta culpado ou rejeitado por não conseguir atingir o que sua fé ou religião exige ou seja apenas um religioso nominal. Às vezes falta refletir mais sobre Deus e o sentido da vida para levá-lo a uma consciência de si mesmo e de seus problemas ou pecados. O arrependimento e o perdão são uma cura para quem confia em Deus!

O gráfico é representado com um círculo partido em quatro partes em tamanhos diferentes onde é dado o tamanho de acordo com a importância que é dada a tal área. Cada pessoa pode configurar este gráfico de maneira diferente de acordo com a tarefa que acha primordial até a menos interessante.
Através de uma análise de como o aconselhado trabalha as quatro tarefas da sua vida pode-se descobrir qual é o problema em si, pois irá se manifestar em cada uma destas quatros áreas ou tarefas.  Assim o problema não é tratado de forma isolada, mas em seu verdadeiro contexto e a reflexão produz um desejo de mudança que levará o aconselhado a vencer. “A fé cristã precisa provar-se em todas as quatro áreas da vida”[12].
O conselheiro pode o ajudar o aconselhado com base neste gráfico das quatro tarefas da vida. O aconselhado dividirá o círculo de acordo com seu pensamento de cada área podendo ainda conversar com outras pessoas pedindo sua opinião de como tem levado tal tarefa ou ainda incluir outros aspectos que julga serem reais em sua vida.
Muitas vezes o erro estará localizado em uma das áreas, porém com conseqüência nas outras, podendo também gerar outros problemas nas demais. É preciso orientar o aconselhado a descobrir através dos sintomas qual é o problema em si e então trabalhá-lo nas quatro tarefas da sua vida.
Um desequilíbrio pode ser apresentado no gráfico mostrando que o descuido com uma tarefa da vida pode ser perigoso.  Sendo então necessário ponderar sobre suas prioridades e não tomar conclusões ou decisões rapidamente. Talvez a conclusão seja a necessidade de refazer seu projeto de vida de forma mais equilibrada.

O aconselhamento terapêutico e o trabalho com os quatro objetivos errôneos [13] é apresentado no décimo oitavo capítulo.
Muitas dificuldades ou problemas são oriundos de objetivos errados que estão escondidos e podem ser percebidos nos comportamentos destrutivos. Estes objetivos ou pensamentos errados devem ser descobertos e reconhecidos para promover o desejo de mudança.
Os quatro objetivos errados desenvolvidos pelo médico terapeuta americano Rudolf Dreikurs são:
1) Justificar suas deficiências e faltas cometidas. Não assumir os erros, culpar outras pessoas, fugir de responsabilidades, dar desculpas, procurar um ‘álibi’ para se justificar, medo de se expor, proteger-se através de racionalizações e a necessidade de ostentar-se irrepreensível. O melhor exemplo disso é o de Adão que lança a culpa em Eva e esta por sua vez lança a culpa na serpente justificando-se cada um de seus erros através de uma fuga da responsabilidade.
2) Tentar conseguir mais atenção. O egoísmo, a necessidade de ser visto ou elogiado, assumir muitas responsabilidades para causar boa impressão, gabar-se do que faz, provocar inveja nos outros, vaidades, tentativas de melhorar a imagem e até mesmo o uso de pequenas doenças para chamar atenção das pessoas. Os fariseus são um exemplo de quem gostava de aparecer e o Senhor Jesus o maior exemplo de humildade, embora não quisesse, acabava sendo notado.
3) Busca de superioridade, poder e importância. A tentativa de aparentar ser mais do que realmente é com a necessidade de sempre estar com a razão para se impor tendo sempre o domínio da situação. Recorrer a agressões para demonstrar seu poder, passar sermões nos outros para mostrar sua força, aparenta-se pronto para ajudar com o desejo de sempre estar no controle ou até recorre ao silêncio de forma agressiva para impressionar outra pessoa. A palavra de Deus, contudo orienta que no Reino de Deus, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos por isso não há necessidade de mostrar superioridade, pois Deus irá dar a cada um aquilo que merecer.
4) Desejo de retalhar e vingar-se: Desejo de retribuir o que recebeu de mau, dificuldade de perdoar, às vezes fica satisfeito com algo de ruim que acontece com outra pessoa, deseja o mal em pensamentos, palavras e ações, ou até mesmo retaliações pessoais como o uso de vícios, doenças e tentativas de suicídio para vingar-se de familiares. A Bíblia ensina a amar até os inimigos e orar por aqueles que perseguem, pagando o mal com o bem (Romanos 12:18).
Estes quatro objetivos errôneos dificilmente são reconhecidos, pois estão escondidos no interior da pessoa, são mecanismos de defesa mentirosos que tentam justificar os erros, fugir de tarefas, responsabilidades e pessoas desagradáveis. Colocam em risco os relacionamentos e até a saúde física, mental e espiritual podendo provocar doenças. 
Tais perturbações podem ser descobertas através de reflexão, questionamento, aconselhamento e tratados com arrependimento, oração e leitura da Palavra de Deus.

Estes cinco capítulos apresentam de forma muito clara e prática o que nomeia o livro ACONSELHAMENTO - COMO SE FAZ: a Bíblia como fonte de sabedoria para aconselhar (cap. 1), o estilo de vida da pessoa aconselhada que precisa ser descoberto para ajudá-la (cap. 5), como descobrir a doença ou problema através dos sintomas  (cap. 7), as quatro tarefas da vida que precisam estar em equilíbrio para ser feliz (cap. 16) e os quatro objetivos errôneos que provocam dificuldades e  muitas vezes estão embutidos nos comportamentos de pessoas problemáticas.
Certamente o autor é alguém que vive o que transmitiu porque o aconselhamento é apresentado de forma muito simples e prática, podendo ser exercido por qualquer pessoa que realmente deseje ajudar alguém. Contudo o uso de métodos pode ser ineficaz se não estiver preenchido da essência apresentada claramente que é a vida com Deus.
Aconselhar é um processo vivo que transmite vida para quem perdeu o sentido na vida. É preciso disposição para estar neste processo doando ou recebendo vida.




[1] Pág,5
[2] Pág. 7
[3] Pág. 81
[4] Pág. 83
[5] IDEM
[6] IDEM
[7] IDEM
[8] IDEM
[9] Pág.99
[10] Pág. 100
[11] Pág. 171
[12] Pág. 172
[13] Pág.193

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