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Educação teológica e pietismo: a influência na formação pastoral no Brasil

SILVA, Geoval Jacinto da. Educação Teológica e Pietismo: a influência na formação pastoral no Brasil, 1930-1980. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2010. 286 p.
          Em “Educação teológica e pietismo”, Geoval Jacinto da Silva (a seguir: G.J.), de uma forma científica, mas ao mesmo tempo didática, nos apresenta uma grande obra sobre a influência do Pietismo no Brasil. Ao longo de suas 286 páginas e de seus quatro capítulos, G.J. nos mostra como o movimento pietista influenciou o processo da educação teológica oferecida pelas Faculdades de Teologia na formação pastoral e no modelo de Igreja que foi implantada no Brasil pelas igrejas de missão.
Este livro é resultado de uma pesquisa em nível de pós-doutorado, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Portanto, a presente obra é fruto de intensas pesquisas, tanto em instituições brasileiras quanto do exterior, o que nos permite perceber a riqueza das fontes, das ideias e da escrita ao longo do texto.
Atendendo a exigências acadêmicas de avaliação, farei uma breve análise do capítulo dois desta grande obra: “O movimento pietista e sua influência na formação pastoral das igrejas de missão no Brasil”. Dentro desta perspectiva, destaco a seguir alguns pontos marcantes deste capítulo:

 1)      Origem e desenvolvimento do movimento pietista – antecedentes históricos:
Para G.J. não é tarefa fácil remontar às origens do pietismo ou influências geradoras desse movimento, pois tal movimento sempre foi uma constante da História da Igreja e tem como background histórico a contestação de parte da Igreja à ortodoxia protestante. Tempos depois da Reforma Protestante, fica notório um enfraquecimento religioso, isto devido a algumas dificuldades, como o problema da burocratização e o embotamento do espírito de liberdade, do livre-exame das Escrituras e da orientação impositiva no campo da exegese e, além disso, as contínuas disputas teológicas entre luteranos e calvinistas explicam o papel obscuro do protestantismo.
Segundo G.J., foi nesse contexto que o movimento pietista surgiu, como uma tentativa de retomada do espírito da reforma e que o fator gerador do movimento de renovação pietista é atribuído ao sermão intitulado Pia Desideria (1675), de Philipp Jakob Spener (1675-1705), que posteriormente, se tornou um livro. Portanto, G.J. conclui que o pietismo teve seu ponto de partida no trabalho de Philipp Jakob Spener (1675-1705). Spener, com isso, avalia as condições da igreja e convoca uma segunda reforma. Para ele, a vida santificada era aquela que se expressava no exercício do amor ao próximo. Quanto ao Pia Desideria, G.J. nos apresenta quatro pontos principais, como princípios de esboço de uma proposta de reforma:

1.      Experiência religiosa: a experiência religiosa assume um caráter preponderante na vida do crente;
2.      Biblicismo: seus padrões doutrinários emanam da Bíblia, ainda que o Catecismo deva ser ensinado às crianças;
3.      Perfeccionismo: preocupação com o desenvolvimento espiritual, bem como com a proclamação do Evangelho e com a prática social de socorro aos necessitados;
4.      Reforma da Igreja: desejo de reformar a Igreja, combatendo a sua letargia espiritual, bem como suas práticas consideradas mundanas;

Em resumo, G.J. nos dá uma visão geral da origem e das características do pietismo: movimento da Alemanha, de intensa renovação da piedade no interior do luteranismo, em contraposição à forma racional, doutrinária, burocrática que predominava em sua teologia e nas atitudes dos fiéis. E segundo G.J., o pietismo alemão irá influenciar John Wesley e a Igreja Metodista em seus momentos constitutivos na Inglaterra na segunda metade do século XVIII.

2)      O Pietismo nos Estados Unidos – implantação e desenvolvimento:
Percebemos neste bloco que o pietismo atravessou fronteiras na Europa e chegou à Nova Inglaterra (Estados Unidos). Neste ponto, G.J. passa a analisar o desenvolvimento do pietismo nos Estados Unidos, que tempos depois se instalou no Brasil. Para isso, desenvolve suas ideias em duas ênfases: primeira, a implantação das missões na Nova Inglaterra; segunda, a análise de como estas igrejas foram promotoras das idéias do movimento pietista que chegou ao Brasil no século XIX.
G.J. destaca que, por causa da colonização dos Estados Unidos pelos países da península ibérica, a presença da Igreja Católica era unânime e a estratégia militar para realizar a conquista e a evangelização era não permitir qualquer aproximação de outras nações marcadas pela Reforma Protestante. Mas, G.J. ressalta que este sistema mantido pelo colonizador não permaneceu por muito tempo, pois com a guerra na Inglaterra, países formados por esta, como Irlanda e a Escócia, de tradição puritana, passaram a explorar as novas terras com objetivo de formar uma colônia marcada “por uma religião pública e pessoal”. É importante destacar que o puritanismo foi mais um modo de ser da vida religiosa que se foi ajustando, nem sempre passivamente, às várias correntes de pensamento que vão desembocar na América e se prolongam pela história do protestantismo naquele país e pelas suas áreas de influência missionária.
Portanto, segundo G.J. não se pode esquecer que o protestantismo desenvolvido nos Estados Unidos foi marcado pelas ideias do puritanismo inglês com todas as suas possibilidades e limitações e que o pietismo americano influenciou os grandes movimentos de despertamento religioso. Foi neste contexto de construção de uma nova nação que surgiram os metodistas.

3)      O movimento pietista no Brasil e seu desenvolvimento nas igrejas de missão:
Nesta seção, G.J. se dedica em estudar a implantação e o desenvolvimento do movimento pietista no Brasil, que chegou aqui por intermédio das igrejas de missão a partir da metade do século XIX até 1930. Sendo assim, G.J. destaca três características básicas sobre o campo religioso brasileiro que vai receber a presença do protestantismo de missão neste século. O conhecimento dessas características facilitou o advento do protestantismo no Brasil: piedade supersticiosa; festas como instrumentos das práticas religiosas; e liberalismo religioso;
De forma objetiva, G.J. procura apontar algumas das contribuições que o movimento pietista deixou como herança para a continuidade da presença do protestantismo no Brasil:
a)      A democratização da estrutura religiosa. Concílios e líderes passaram a se formar por escolha democrática;
b)      A ascensão do leigo na organização religiosa. Promoção humana;
c)      Contribuição para secularização da sociedade através do aparecimento de mais uma religião no cenário nacional;
d)     A divulgação de uma pedagogia mais consentânea com a vida moderna. Grande ênfase na educação física;
e)      Provocou no clero católico certa revisão em seu relacionamento com o povo brasileiro;
f)       Provocou nos fiéis um interesse maior pela arte, ao mesmo tempo que ofereciam oportunidades de bolsas de estudos nos Estados Unidos;
g)      Protestantes lutaram ao lado de positivistas por interesses comuns da sociedade;
h)      Contribuição para uma nova perspectiva pedagógica com a fundação de colégios;


Em um curso de teologia é de grande importância leituras como essa. Sem dúvida alguma, esta obra oferece grandes contribuições para aqueles que dedicarem algumas horas à estas páginas. Estudar sobre o pietismo certamente é algo indispensável para um acadêmico de teologia, pois nos traz importantes revelações sobre nossas origens. Posso afirmar que com este conteúdo nossa percepção crítica se tornará mais eficiente. Entendo que no meio pastoral, lidando com pessoas, é extremamente importante uma apurada capacidade de percepção, isto porque o pastor com esta habilidade tem maiores chances de ajudar as pessoas a se conhecerem e a entenderem certas dificuldades. Quando aprendemos a olhar o passado e descobrir em cima de que nossas ideias e princípios foram construídos, temos a capacidade e oportunidade de mudarmos alguma coisa. Fora isso, dificilmente. E isto é o que este livro nos oferece: um olhar atento sobre nossas influências e origens.


Por: FELIPE BAGLI SIQUEIRA
Trabalho apresentado ao Prof. Dr. José Carlos de Souza, com vistas à aprovação em disciplina. — 1º. Ano, Período Matutino, do Curso de Bacharel em Teologia da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista —Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo — setembro de 2010

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