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PARA LER A HISTÓRIA DA IGREJA II DO SÉCULO XV AO SÉCULO XX - Jean Comby

BÍBLIOGRAFIA: COMBY, Jean. Para ler a História da Igreja II: do século XV ao século XX, São Paulo: Loyola, 1994.

Introdução
 A Igreja faz história. Na verdade a história também fez a Igreja e esta assumiu diversas características durante os tempos transformando e sendo transformada.
O período entre os séculos XV e XX foi um tempo de muitas revoluções onde a Igreja foi por vezes protagonista, por vezes ‘vítima’ e por outras expectadora passiva dos acontecimentos que geraram a sociedade e a Igreja de hoje.

CAPÍTULO 11 - Renascença e Reforma (final do século XV – Século XVI)
No final do século XV surge um novo movimento de renovação da cultura denominado renascença. Este momento inovador possui a finalidade de romper relação com o papado e com o império. No mesmo período surgiu a imprensa proporcionando a divulgação das obras religiosas e seculares em maiores escalas.
Justaposta a esta inovação no final do século XV a distribuição geográfica, assume características inovadoras. França, Inglaterra e Espanha passam a ser estados possuindo demarcação territorial semelhante a atual.
Os líderes reorganizam o processo da Inquisição e reformam seus interesses a partir de pautas estatais, visto que o papado perdeu prestígio devido às séries de controvérsias existentes na vida pública e privada de tais soberanos.
Portanto, a renascença traz à memória a antiguidade, com manuscritos gregos reativando a literatura, a arte e as ciências. No aflorar desse processo, homens renomados propuseram o humanismo cristão, trazendo excelência tanto intelectual quanto cristã em suas obras. Thomaz More e Erasmo de Roterdam trazem em suas reflexões o saber divino harmonizado com a razão humana, sendo ambos os maiores representantes do humanismo cristão.
Todavia, a Igreja não correspondeu às expectativas cristãs. Os manuscritos não bastavam para socorrer as aflições de um povo que temia o apocalipse. Além disso a Renascença coincide com a reaparecimento dos ritos ocultos da bruxaria desencadeando um movimento de caça às bruxas por todas as cidades.
Devido a tais circunstâncias a iminente preocupação da população com a sua alma e as constantes imposições financeiras do clero católico desaguaram no caos geral.
Então, em 31 de Outubro de 1517, no castelo de Wittemberg na Alemanha, Martinho Lutero, envolto em idéias revolucionárias pregou suas 95 teses expondo as contradições existentes nas indulgências. Porém a reforma fez surgir o sentimento nacionalista alemão dividindo o país entre prós e contra Lutero.

CAPÍTULO 12 – Renovação católica (Séculos XVI – XVII)
  Mediante os acontecimentos conseqüentes de seu protesto, Lutero foi excomungado da Igreja Romana, fundando o Luteranismo. Depois de Lutero vários reformadores se manifestaram ao longo dos anos, a fim de formarem suas correntes teológicas. Estes discípulos da doutrina luterana como João Calvino e Zwinglio, defendem suas teses e formam subgrupos no meio dos protestantes.
            Calvino enfoca a centralidade divina e a predestinação, esta última afirma que apesar de todos estarem condenados, Deus teria seus escolhidos para salvar ou condenar. Em outras palavras Calvino ajusta sua teologia aos fins que almeja afirmando também que o empréstimo do capital a partir da exigência da cobrança de juros sendo totalmente lícito e confirmando a prosperidade dos nobres como o aval divino para a salvação dos mesmos.
Ao longo do século XVI o ‘rebanho’ mundial dos cristãos se divide segundo seus pastores, constituído um número cada vez mais crescente de novas igrejas. Nas ilhas britânicas os motivos para a formação de uma nova Eclésia se difere das demais porquanto a finalidade da constituição eclesiástica dos anglicanos surgiu não por questões teológicas e sim pessoais do rei Henrique VIII que não conseguiu permissão papal para divórcio e se proclamou chefe da Igreja na Inglaterra.
            Os países baixos de hoje, no passado aderiram à reforma se afastando dos compromissos com o clero católico. Tais nações que se constituíam em França, Inglaterra, Espanha e Escócia assumem o protestantismo segundo os ideais Calvinistas.
            Devido aos constantes pedidos de concílios, o clero católico resolve reunir sua cúpula conciliar em Trento. Presidido pelo papa Pio IV, a pauta conciliar de Trento se dispõe a solucionara as querelas que desencadearam a reforma. Neste momento é que surge o movimento contra-reformista católico em resposta ao movimento reformista protestante. No século XVII muitos bispos católicos iniciaram uma série de renovações pastorais tendo como ponto de partida o concílio de Trento.

CAPÍTULO 13 – A evangelização do mundo (Séculos XV – XVIII)
O cenário mundial gira em torno da centralidade religiosa, onde tanto soberanos protestantes quanto católicos se consideram dominadores absolutos de seus territórios. Tanto a Reforma como as decisões contra-reformistas do concílio de Trento resultaram em um processo de evangelização em massa. O catecismo foi o meio pelo qual a Eclésia romana usufruiu para a divulgação de sua doutrina.
             As navegações levaram à descoberta da América em 1492 por Cristóvão Colombo, gerando questões que conturbaram o mundo visto que o papa liberou concessões para que a Espanha e Portugal repartissem o território conquistado. Estas descobertas do século XV e XVI promoveram a evangelização universal. Primeiramente devido as necessidades econômicas existentes levando várias nações a buscar especiarias no mercado oriental e impelindo missionários a seguir os comerciantes em suas rotas navais.
            Com o povoamento dos territórios descobertos a Igreja Católica enviou missionários par converter os nativos dessas terras. Imbuídos do sentimento evangelístico promulgaram o aculturamento total dos nativos existentes, contribuindo inclusive a dizimação desses autóctones, contudo nem todos países evangelizados obtinham pouca estrutura par resisti a imposição da religião.
            No Japão, por exemplo, houve um grande número de execuções de missionários por parte dos nativos como forma de resistência a nova doutrina pregada. Entretanto vários levantes da missiva cristã, mesmo sendo desprezada, repercutiu em um número considerável de adeptos espontâneos ou forçados pelo poder da Igreja. Este fator transformou as missões mundiais, visto que as execuções da lei divina muitas das vezes eram na verdade jurídicas e do ponto de vista financeiro.

CAPÍTULO 14 – A Igreja no tempo das luzes e da Revolução (Séculos XVIII)       
A Igreja tanto na França como em toda a Europa sai transformada da revolução e do tempo das luzes que valorizou a razão perdendo o domínio até mesmo do ensino.
Na França o rei Luiz XIV, a partir do lema ‘um Deus, um rei, uma lei e uma fé’, aplica o Edito de Nantes que obrigava os protestantes a assumir e confessar a fé católica, tendo por finalidade possuir argumento para convencer o papa a conceder-lhe as regalias que tanto desejava receber e entra em profundo desacordo com o papado que naquele momento estava ocupado por Inocêncio XI.
Em 1685, o rei Luiz XIV revoga o Edito de Nantes devido as petições do clero católico francês. A França, no início do século XVII foi invadida por uma forte corrente de misticismo que por sua vez contribuiu para a promoção do quietismo.
No século XVIII, a partir de 1750 a prática da fé cristã diminui de maneira considerável. A igreja compactuava apenas com os interesses da nobreza tornando-se sem prestígio entre a população. Surge então o tempo das luzes, onde a filosofia ganha características próprias.  Contudo a razão e a revelação se posicionam de forma contrária.
            Mediante tal situação a Igreja tenta usufruir os seus métodos repressivos e tradicionais proibindo seus fiéis de possuir ou ler certas literaturas. Neste contexto, a aversão à fé romana bem como o despotismo esclarecido cresce de forma considerável.
No entanto a forte oposição católica às descobertas científicas geram divisões entre amantes das ciências e os pregadores católicos. Paralelamente os infortúnios gerados dentro do clero romano entre Jesuítas e Jansenistas provocam uma crise de interesse entre esses grupos, visto que os Jansenistas defendiam a linha agostiniana da graça e predestinação tendo por forte opositores os Jesuítas por questões financeiras.
            No decorrer de todo o século XVIII vários religiosos ganharam destaque bem com suas obras teológicas tais como Zinzedorf que se tornou missionário e enviou os irmãos morávios às Américas. Estes inspiraram grandemente o metodismo de John e Charles Wesley.
            Devido às interligações da igreja anglicana com a nobreza a população mais carente da Inglaterra se viu desamparada. A experiência religiosa de John Wesley a qual ele mesmo denomina como conversão o impele a levar as boas novas de salvação às massas inglesas. Após a morte de Wesley, o metodismo se construiu como igreja tornando-se uma das primeiras congregações nos Estados Unidos.

CAPÍTULO 15 – Restauração e Liberalismo (1815-1870)
Em 1795 na França há uma inovação de reconhecimento da liberdade cultica separando-se portanto estado e igreja. Com a ascensão de Bonaparte a questão do poder gira em torno do novo imperador e do papado. Napoleão requer do papa apoio par romper as relações comerciais com a Inglaterra. Mais tarde invadiu Roma e levou o alto clero para França impondo seus ideais de dominação.
No século XIX, o congresso de Viena reorganiza a Europa e devolve ao papado seus estados. Esse fator fez com que houvesse a ‘ressurreição’ do sentimento missionário.
            Na Inglaterra os católicos representavam uma proporção ínfima da população, embora com a imigração irlandesa esse quadro tenha sofrido mudanças consideráveis. No mundo protestante o liberalismo se encaixa nos ideais científicos a fim de tornar o cristianismo mais popularizado. 
A burguesia liberal se opõe ao reavivamento católico. Na Europa os Belgas se revoltaram obtendo total apoio dos católicos enquanto a Polônia proclama sua independência em 1830 sendo aconselhada pelo clero católico a se submeter à poderosa Rússia.
Em 1848 o liberalismo econômico tomou novas proporções desagradando aos católicos amantes do velho regime. O índice de desempregados cresce e em países como a França onde as eleições promoveram uma intensa guerra civil entre operários nacionalistas e governo.

CAPÍTULO 16– Secularização, defesa religiosa, Pluralismo.
A separação entre Igreja e Estado se deu a princípio por questões docentes. Isto significa que o ensino que por sua vez era restrito ao domínio religioso passou a ser secularizado e dirigido pelo Estado. Tais rupturas aconteceram em torno de todo mundo sendo que as intensificações atingiram o ápice das intervenções religiosas não obtendo significado no meio público e social.
A fim de se defender do racionalismo, panteísmo, fideísmo e até mesmo das acusações liberais, a igreja convocou seus líderes par o concílio Vaticano I propondo respostas a questões de envolvimento racional, a fé em um Deus que a razão pode atingir se estiver submetida à revelação.
Entre 1914 a 1918, período da primeira grande guerra mundial, os cristãos se portam de maneira nacionalista, isto é, em cada região do mundo envolvida nesta guerra os cristãos conciliavam Deus com seus objetivos políticos.

CAPÍTULO 17 – Um Cristianismo de Dimensões mundiais (1800-1940)
Após dez anos de conflitos, vários tratados de paz foram realizados através de petições papais. Na Itália, já em 1922 o partido de Benito Mussolini ganha força e prestígio, sendo consolidado perante o povo por intermédio do tratado de Latrão. Já na Alemanha, Hitler chega ao poder em 1933 e se aproveita dos sentimentos feridos daquela nação por ter perdido a primeira guerra, culpando assim os agentes externos, judeus, negros e ciganos pelo prejuízo nacional.
Tais eclosões partidárias e nacionalistas se dão no mundo todo dividindo e reprimindo opiniões. Ao longo dos anos, o despertar missionário ressurge em uma Europa imperialista. Em vários lugares antes inalcançados, as facilitações de transportes promoveram uma missiva intensificada.

CAPÍTULO 18 – O peso da modernidade
Em pleno século XX, diante de inovações políticas e sociais, a Igreja procura mediante tão grande modernização, se posicionar neste contexto através da prática paternalista de apoio incondicional e assistencial à sociedade.
Neste mesmo cenário as primeiras confissões ecumênicas surgem como, por exemplo, a promoção da Semana da Unidade, com sete dias de orações e cultos voltados à união entre cristãos e outras religiões.

CAPÍTULO 19 – Da segunda Guerra Mundial ao Concílio (1939-1958)
Entre 1939 e 1958 o mundo sofreu as conseqüências da segunda guerra mundial. Destruições, conflitos e massacres se espalham pela Europa. O extermínio dos judeus alcançou frações inacreditáveis, sendo tudo isso de conhecimento do papado que se calou mediante tais fatos. O pontificado de Pio XII teve sua autoridade questionada por não ter se posicionado em meio ás ameaças nazistas
 Após a vitória de 1945, os países vencedores liderados pelos Estados Unidos e os vencidos entraram num embate político e econômico conhecido como guerra fria. Por todo o mundo alguns países se abriram ao liberalismo do capital enquanto outros como a China se fecham para o mundo de maneira radical.

CAPÍTULO 20 – A igreja do Vaticano II (1958-1980)
O concílio Vaticano II, presidido pelo papa João XXIII, apresentou várias constituições que nortearam assuntos como santidade e as posições da Igreja no mundo. Todavia a evocação das práticas cristãs remonta um quadro de religiosidade muito grande, isto é, os cristãos não exerciam mais a fé e sim a religião.

Conclusão
 Em suma, no decorrer dos acontecimentos entre os séculos XV a XX, inúmeras foram as adaptações, reformulações e divisões do ‘rebanho’ cristão mundial, demonstrando que a cada geração novas situações fazem a igreja sofrer diferentes padronizações, porém o Evangelho ainda é o mesmo.
Por isso é importante reler o passado para construir um futuro melhor. Talvez se a Igreja tivesse olhado mais para suas histórias teria mais zelo ao agir, teria sido menos poderosa, porém vencedora, principalmente se buscasse mais de sua origem na cruz onde não importam estado, nobreza, tronos ou títulos porque é o centro do Reino de Cristo.

BÍBLIOGRAFIA
COMBY, Jean. Para ler a História da Igreja II: do século XV ao século XX, São Paulo: Loyola, 1994.

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