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SANTO ATANÁSIO – A encarnação do Verbo

Lógos peri tês enantropéseos tôi
  Por: FELIPE BAGLI SIQUEIRA
Trabalho apresentado ao Prof. Dr. José Carlos de Souza, com vistas à aprovação em disciplina. — 1º. Ano, Período Matutino, do Curso de Bacharel em Teologia da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista —Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo — setembro de 2010
Santo Atanásio / [introdução e notas: Roque Frangiotti; tradução: Orlando Tiago L. R. Mendes]. – São Paulo: Paulus, 2002. 366 p. – (Coleção Patrística – vol. 18).

Santo Atanásio (a seguir: S.T.) nasceu em Alexandria em 295 e morreu depois de uma longa e conturbada existência nesta mesma Alexandria aos 2 de maio de 373. Foi um dos maiores e mais ilustres padres e doutores da igreja e o maior batalhador na defesa do Credo de Nicéia. Converteu-se ainda na juventude e aos dezessete anos foi escolhido pelo bispo Alexandre para ocupar o cargo de leitor. Em 318, aos 23 anos, torna-se diácono e secretário episcopal.
Nesta época, Alexandria tornara-se o foco incandescente da controvérsia ariana e S.T., apoiando seu bispo, se tornou o maior adversário de Ário (presbítero de uma importante igreja alexandrina), pois foi o campeão da tese da consubstancialidade do Pai e do Filho. Em 328, após a morte do bispo Alexandre, S.T. assume o cargo de bispo de Alexandria. Seus quarenta e seis anos de episcopado foram marcados por um período de grande conturbação na Igreja antiga, mas também por grandes obras apologéticas, dentre elas “A Encarnação do Verbo”.

A Encarnação do Verbo é uma obra aproximadamente do ano 335 ou 337. Possui 57 capítulos divididos em seis partes e no centro de sua história está a cruz e a ressurreição, que sublinha, contra judeus e pagãos, a fraqueza humana e a iniciativa divina do Verbo. Enquanto os arianos sustentavam que o Logos é uma criatura trazida à existência antes da criação do mundo, Atanásio ensinava que ele é plenamente divino e coeterno ao Pai. É, sem dúvida, sua obra mais original e significativa.
Na primeira parte (cap. 1 a 7), S.T. nos conduz aos antecedentes da encarnação do Verbo, observando e analisando a criação e queda do homem. Defende a criação do mundo a partir do nada, negando a idéia de anti-matéria. Segundo S.T., é impossível falar de encarnação do Verbo sem tratar da origem do homem, visto que, o homem foi o motivo da encarnação e por sua salvação, o Verbo amou o homem até nascer e manifestar-se com um corpo. Então, ao longo deste bloco descreve a intenção do Verbo para livrar o corpo humano da corrupção e da morte.
A vitória sobre a morte e o dom da incorruptibilidade é o tema da segunda parte (cap. 8 a 10). Ao ver a situação do homem, o Verbo não quis apenas somente aparecer, mas tomou um corpo igual ao nosso, pois compreendeu que a corrupção dos homens de forma alguma poderia ser destruída, a não ser pela morte. Mas, era impossível que o verbo morresse sendo imortal. S.T. afirma que o Verbo assumiu corpo a fim de oferecê-lo em sacrifício em favor dos corpos semelhantes ao seu.
Em sequência, na terceira parte (cap. 11 a 16), S.T. demonstra a vontade de Deus na restauração humana. Percebemos em suas palavras a limitação do homem em conhecer o criador e sua loucura em desprezar a graça de Deus, o que resultou no afastamento e na corrupção total. Descreve então a missão do Verbo de Deus de re-criar o homem segundo a imagem, sendo Imagem do Pai.
A parte quatro (cap. 17 a 32) se dedica em ressaltar o valor salvífico da encarnação do verbo. S.T. descreve neste bloco como o Verbo venceu a morte estando em um corpo mortal. Destaca que a ressurreição ocorre em um período de tempo perfeito, em que não deixa dúvida da morte, mas também não deixa possibilidade de contestar a vida. Com isso, observa S.T., que as pessoas em Cristo passam a desprezar a morte e a gozar da autoridade do nome de Jesus.
A partir deste ponto (cap. 33 a 40), S.T. destina suas palavras aos judeus e mais tarde aos gregos. Contra os judeus utiliza referências dos profetas, como Moisés e Isaías, em que se fala da morte de cruz do Verbo. Faz um importante paralelo com alguns personagens bíblicos, demonstrando as limitações deles e ressaltando a perfeição do Verbo. Argumenta com alguns milagres inéditos, característicos no ministério de Jesus, como a cura de doenças inatas, que não aconteceram em outra época. Mas, o principal argumento é que no período em que cessam os profetas, Jesus aparece.
S.T. encerra destinando sua última parte (cap. 41 a 57) aos gregos filósofos e idólatras. Inicia externando sua insatisfação contra a zombaria dos gregos e também a idolatria marcante em suas práticas. Não apresenta idéias novas, mas fortalece sua apologia ao se apossar de uma linguagem mais sistemática. Reforça a idéia da onipresença do Verbo, de que está dentro de um corpo, mas ao mesmo tempo em tudo. S.T. descreve que o homem possui um conhecimento equivocado de Deus e para permitir-se conhecer no todo, o Verbo se fez parte. Encerra seus escritos provocando os gregos dizendo que a sabedoria helênica enlouqueceu quando apareceu a sabedoria divina.
A encarnação do Verbo é uma leitura muito interessante. Nos permite entender um pouco dos conflitos da época de S.T. e perceber seus esforços na defesa de um evangelho puro e genuíno. Que estas páginas nos tragam um olhar atento para nossa realidade e ajude a forjar em nós um caráter apologético de nossas práticas cristãs.


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