Dons e Ministérios: fontes e desafios

GÊNESIS 2-3: Um projeto de esperança

por: Felipe Bagli Siqueira 

Trabalho apresentado ao Prof. Pós-Dr. Jung Mo Sung,
com vistas à aprovação em disciplina. — 2º. Ano, Período Matutino,
do Curso de Bacharel em Teologia da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista
 Universidade Metodista de São Paulo.
 São Bernardo do Campo — junho de 2011

INTRODUÇÃO[1]:
 Um tema de grande conflito na vida de uma comunidade cristã é a criação. Isto porque a igreja ainda não aprendeu a ler a Bíblia. Partindo de uma interpretação literalista das escrituras, sem espaço para outros meios de interpretação, percebemos a igreja trilhar caminhos perigosos e equivocados, que sem dúvida alguma, poderiam ser evitados. A partir do avanço técnico-científico, este tema, assim como tantos outros, ganhou novas preocupações, e a igreja, na tentativa de “salvar” a fé dos fiéis, optou pelo caminho do isolamento, produzindo uma comunidade alienado a toda evolução sofrida pela sociedade.
Como fruto desta igreja, cresci ouvindo a história de Adão e Eva como relato científico e de fidelidade histórica da criação do universo. Porém, em 2006 iniciei meus estudos no ensino superior, cursando Ciências[2]. A partir de então, a igreja a favor ou não, estava em contato com a sociedade, e o pior, em um curso de Ciências.
De forma bem aprofundada começamos a estudar diversas teorias, e como esperado, as teorias sobre o início do universo e da evolução. Fui sendo aos poucos, bombardeado com informações que à primeira vista eram contrárias às narrativas bíblicas. No início foi difícil associar estas informações, pois me vi diante de uma “guerra” entre minha fé e minha razão. A possibilidade de um diálogo entre religião e ciência era mínima, pois não fui educado pra isso. Portanto, me vi mergulhado em uma crise.
A partir desta dificuldade, percebi a necessidade de rever alguns pensamentos a respeito dos textos bíblicos. Iniciei um processo de estudos na tentativa de entender melhor o papel da bíblia na vida do povo. Ao ler a bíblia mais atentamente, percebi certas incoerências e relatos que não faziam muito sentido. Compreendi, a partir daí e de diversos diálogos com alguns pastores, que precisava de fato, aprender a ler a Bíblia. Iniciei então, meus primeiros passos em busca de uma leitura mais apurada das escrituras. 

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GÊNESIS 2-3 NUMA NOVA PERSPECTIVA:

Ao iniciar meus estudos teológicos de uma forma mais profunda, comecei a entender melhor as escrituras. Mas, alguns temas, como a origem do universo e do ser humano etc, ainda ficavam muito longe de uma compreensão. A partir das aulas de Criação e Antropologia[3], conheci alguns caminhos interessantes para uma melhor leitura da Bíblia. Com isso, temas até então distantes, tornaram-se compreensíveis, como por exemplo, o tema da criação.
A narrativa bíblica de Gênesis 2-3 não é um tratado científico e muito menos um relato histórico[4], mas é uma tentativa de resposta a questões levantadas pelo povo de seu tempo, ou seja, busca dar sentido à vida das pessoas inseridas no contexto[5], diante do sofrimento e das incertezas quanto ao futuro. Portanto, nesta perspectiva, percebemos a alteração da pergunta de fundo do texto. A pergunta que outrora trazia o “como?”, nos traz agora o “para quê?”, na tentativa de dar sentido diante do caos e trazer esperança. Diante do avanço científico e novas teorias, a Bíblia, sob minha percepção, retoma o seu lugar na vida do ser humano, abrindo novos horizontes para um diálogo.
Segundo Schwantes[6], há em Gênesis 2-3 um projeto de vida e um projeto de morte, e é como se estivessem à escolha. Portanto, o que marca o conteúdo do texto são as contradições. No primeiro projeto, segundo o autor, o contexto da roça é o que marca o texto, a vida no campo, e o homem é identificado como lavrador. O capítulo 2 enfoca a vida das pessoas em três dimensões: a) relação íntegra com a terra e o trabalho (2.14); b) relação de amizade com os animais (2.20); c) relação de companheirismo entre homem e mulher (2.21-24).
O capítulo 3, segundo Schwantes, nos apresenta outro projeto, o qual leva à expulsão do campo, à destruição das relações. Em três níveis são destruídas as relações como causa da influência da serpente: a) a serpente aniquila a vida dos animais (3.14,15); b) esmaga a mulher, pois a mulher não é mais parceira, é súdita (3.16); c) Enterra o homem, pois o trabalho se torna alienado e vai criando sua própria cova e o túmulo do trabalhador se torna seu trabalho (3.17-19). Portanto, o projeto do campo, com trabalho, mas sem alienação, terá futuro. Não será assim nem é assim, na medida em que outros projetos se impuserem.
Entre estes dois projetos se encontra a serpente. Contrariando uma visão comum, Schwantes apresenta a ideia de que a serpente representa, em Gênesis 3, a idolatria, e não propriamente o diabo. O autor observa que esta idolatria era oficialmente difundida em Israel desde os tempos de Salomão. Ressalta também que a devoção à serpente se assemelha em sua função ao touro de ouro promovido no Norte, no Estado de Israel, tratando-se de cultos de fertilidade. Porém, à medida que esses cultos passam a ser administrados pelo Estado, se tornam instrumentos de dominação, pois o Estado necessita de mais gente para suas tarefas burocráticas, para seu exército e para fortalecimento da própria economia. Para isso, o Estado trata, pois, de ativar a procriação, explicando talvez, o aumento na dor de parto (3.16).
Portanto, para Schwantes, quem ingressa no âmbito da serpente, do culto promovido pelo Estado, adere à idolatria. Quem cede à lógica da serpente, cava sua própria cova, e não há volta, porque a serpente é totalitária.


NOVA CRIAÇÃO” E A IGREJA LOCAL:

            Diante desta nova perspectiva, percebo um grande desafio na igreja local, que pode ser ilustrado pelo “mito da caverna” de Platão:
Platão imagina uma caverna onde estão acorrentados os homens desde a infância, de tal forma que, não podendo se voltar para a entrada, apenas enxergam o fundo da caverna. Aí são projetadas as sombras das coisas que passam às suas costas, onde há uma fogueira. Se um desses homens conseguisse se soltar das correntes para contemplar à luz do dia os verdadeiros objetos, quando regressasse, relatando o que viu aos seus antigos companheiros, esses o tomariam por louco, não acreditando em suas palavras.[7]

            Fazendo uma comparação da igreja local com esta caverna descrita por Platão, entendo que corremos um grande risco no que diz respeito à interpretação bíblica, quanto mais sobre este tema da criação. Como a maioria das igrejas caminham debaixo de uma visão literalista das escrituras, apresentar uma nova forma de leitura requer muito empenho, coragem e fidelidade ao projeto de Deus, pois pode nos custar muito assumirmos uma posição como esta. Porém, percebo que o benefício para a igreja é grande, mesmo que esta, no início, não perceba.
            Como dito anteriormente, vivemos dentro de uma fé alienadora, que não se preocupa muito com a realidade fora das quatro paredes do templo. Percebemos líderes religiosos manipulando a verdade bíblica na busca de interesses pessoais e egoístas. O resultado disto é o que vemos hoje, uma igreja apática, sem credibilidade, opressora e indiferente aos problemas do cotidiano, até mesmo dos próprios membros. Então, a partir desta nova perspectiva, sobre este e outros textos, ou seja, desta nova forma de ler a Bíblia, a igreja, em todas as suas dimensões, tem a possibilidade de retomar seu papel junto à sociedade, lutando a favor da justiça, rompendo de vez com a alienação há muito existente.
            Outra contribuição marcante é a possibilidade do diálogo. Gênesis 2-3 sendo lido como uma resposta aos “para quê?” e aos “por quê?” do povo, a ciência deixa de ser uma rival e se torna parceira na luta por uma vida melhor para a humanidade. Descobertas antigas, que a primeira vista são contrárias às narrativas bíblicas, deixam de ser incômodos, e novas hipóteses não mais nos preocupam, pelo contrário, conseguimos enxergar perfeitamente suas contribuições para a humanidade.
            Nós como pastores e teólogos, carregamos em nossas mãos uma grande responsabilidade. Temos a oportunidade de guiar o povo por um caminho apertado e difícil, rumo ao “lado de fora da caverna”, ou, podemos nos acovardar diante das dificuldades e continuar a alimentar a ilusão do povo diante de uma falsa realidade. Assim como Schwantes discorre em seu livro[8] a respeito de Gênesis 2-3, percebo que estamos diante de dois projetos[9] que estão à nossa escolha: o primeiro, que conduz à libertação; e o segundo, que nos convida à acomodação e indiferença quanto à ilusão de nosso povo. Que possamos escolher pela liberdade, mesmo que nos custe um alto preço.


Referência Bibliográfica
  
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. 390 p.

SCHWANTES, Milton. Projetos de esperança: meditações sobre Gênesis 1-11. São Paulo: Paulinas, 2002. 136 p.

STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Como ler o livro do Gênesis: origem da vida e da história. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1991. 61 p.



[1] Título baseado em: SCHWANTES, Milton. Projetos de esperança: meditações sobre Gênesis 1-11. São Paulo: Paulinas, 2002. 136 p.
[2] Licenciatura em Ciências: com habilitação em Física – pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Marcelina – FAFISM, em Muriaé/MG.
[3] Disciplina do Módulo de Estudos de Teologia Sistemática – 2º Teologia, FaTeo/UMESP.
[4] Não é um relato histórico no sentido atual daquilo que um historiador faz, mas são reflexões do povo sobre suas origens e a origem das coisas.
[5] STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Como ler o livro do Gênesis: origem da vida e da história. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1991. p. 12.
[6] SCHWANTES, Milton. Projetos de esperança: meditações sobre Gênesis 1-11. São Paulo: Paulinas, 2002. p. 111.
[7] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. p. 99.
[8] SCHWANTES, Milton. Projetos de esperança: meditações sobre Gênesis 1-11. São Paulo: Paulinas, 2002. 136 p.
[9] Relacionados à leitura e interpretação bíblica;

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