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Resumo: Metodismo: Releitura Latino-Americana de José Migues Bonino

Diante da realidade latino-americana e à luz do movimento metodista histórico, pode-se questionar que contribuições trouxe o metodismo para os dias atuais.
O metodismo latino-americano originou-se não diretamente do inglês, mas sim do norte-americano, por isso carrega influências de adaptações e tendências um pouco diferentes do metodismo original inglês. O metodismo nasceu em meio a mudanças sócio-econômicas da revolução industrial e chegou à América Latina durante um período de mudanças de uma sociedade tradicional e colonial para moderna e independente. Agora é necessário uma releitura da tradição metodista, tanto original quanto da circunstância latina atual, proporcionando inspiração para continuar fazendo história.
Por onde João Wesley viajava encontrava problemas sociais que despertavam nele o interesse em lutar por justiça social. Isso influenciou muito o metodismo e a fundição, sede do movimento, passou a ser um centro social, alem de local de trabalho e culto. A luta contra o desemprego, tido como causa da maioria dos problemas sociais, contra o contrabando de escravos e a própria escravidão foram ênfases metodistas.
O maior sonho de Wesley era que todos pudessem ter tudo em comum, pois cria e pregava que tudo pertence a Deus e os homens administram. Este não era um pensamento comunista, a regra era “ganhar tudo o que puder, economizar tudo o que puder e doar tudo o que puder”.
Esse interesse social do metodismo contribuiu para impedir uma crise na Inglaterra, ensinando para aquele povo uma vida solidária e disciplinada. Porem, não se pode gloriar do passado e esquecer de fazer algo hoje em prol do futuro.
Em toda a história pode-se encontrar a ação de Deus em busca da salvação da humanidade seguida da ação do homem com seus projetos e conflitos. Wesley e os metodistas buscavam uma verdadeira conversão e como continuidade queriam uma genuína santificação, através da garça de Deus. João Wesley pregava para as massas populares da sociedade e ensinava sobre a conversão ou regeneração, como uma experiência pessoal e cociente de recomeçar uma nova vida, um novo nascimento.
Para trazer a doutrina Wesleyana aos dias atuais é preciso repensar alguns aspectos como o caráter formal da linguagem doutrinaria de João Wesley e as circunstâncias culturais e filosóficas da época, quando se esperava uma “atuação” conseqüente de um “ser”. A regeneração é a ênfase da pregação Wesleyana, devendo a consciência pessoal do convertido lhe ensinar sobre a responsabilidade social e evangelística.
Conversão significa uma resposta positiva à mensagem cristã e ao compromisso com Deus e com o próximo. Os frutos desse compromisso são esclarecidos para os metodistas através das regras gerais e servem de testemunhos evangelizados para a sociedade. Assim o Espírito Santo age na história através da Igreja.
A doutrina Wesleyana trouxe diversas e amplas contribuições ao cristianismo por sua abrangência de temas centralizados na fundamental e original doutrina bíblica. A mensagem de Wesley se baseava em dois fatores: o teológico, de que Deus quer salvar a todos e o pastoral, de que as pessoas já salvas (Igreja) devem contribuir com o propósito Divino, levando a salvação a outras pessoas.
Deus tem um plano para salvar a humanidade do fracasso do pecado. O homem por si só não consegue alcançar a Deus, mas através da sua proveniente graça é alcançado e redimido pelo Senhor. O plano Divino continua em um processo de santificação pela prática do amor até alcançar a perfeição Cristã.
Firme nessa graça é possível praticar a fé em obras de amor alcançando outras pessoas para o Reino. As boas obras não ganham a salvação, ma são frutos dela. No chamado “sinergismo” Wesleyano está a crença de que o homem e a mulher podem contribuir para o plano Divino de salvar a humanidade, como sócios menores de Deus no negócio de implantar o Reino de Deus no mundo, levando o evangelho a toda a raça humana.
O lema do movimento metodista era “espalhar a santidade bíblica em toda a terra”, crendo que este é o objetivo de ser Igreja. Para Wesley a Igreja é um grupo de pessoas que vivem em comunhão, buscam a palavra de Deus e participam dos sacramentos. Estas pessoas têm a missão de levar o evangelho para outros que poderão ingressar na Igreja através da fé viva. Para Wesley não era preciso que todos pensassem igualmente, havia liberdade cercada pela unidade na essência doutrinária.
João Wesley aceitou o modelo de organização da Igreja Anglicana, mas estava aberto a novos conceitos e estruturas. Ele mesmo não dirigia uma Igreja em si, mas uma sociedade de grupos (bands) de pessoas que desejavam crescer na fé e na palavra de Deus. Para participar destes grupos era preciso seguir as regras gerais: fazer o bem, não fazer o mal e observar as ordenanças de Deus (vida de piedade).
A comunhão deve imperar na comunidade de fé em relacionamento, convivência e “santidade social”, cuidando uns dos outros de forma organizada e missionária. A Igreja é renovada pela palavra de Deus através da fé. O metodismo experimentou esta renovação de uma forma popular, com a participação ativa de leigos e leigas, liderada de forma conservadora, mas missionária. O objetivo maior do Movimento Metodista era a transformação da sociedade, tendo a Igreja como instrumento da implantação do Reino de Deus, restaurando a humanidade.
A Igreja Metodista é uma “parte” ou “ramo” da Igreja universal e por isso é ecumênica com outros cristãos. Nessa fé una Wesley ensinou que há um mesmo objetivo entre os Cristãos e isso deve uni-los em comunhão na fé e na práxis do amor
Hoje há muitos ramos confessionais com estruturas que impedem a comunhão entre as Igrejas na América-Latina. Falta o entendimento de que há “um só Deus e um só Espírito” que conduz à mesma verdade. Diante de tanta diversidade confessional é difícil conceber uma Igreja Mundial sem a compreensão do Cristo-Uno que vence barreiras culturais, geográficas, idiomáticas e tradicionais.
O metodismo sempre se caracterizou respeitador das opiniões e desarmado de confessionalismo, não se afirmando dono de uma particular doutrina. Destaca-se então a organização estrutural da Igreja Metodista que vem se mostrando eficiente e eficaz. Esse posicionamento favorece a relação ecumênica, não só preservando a herança metodista, mas repartindo com todos a fé comum, em luta pelos direitos humanos e sociais.

BONINO, J. Míguez. Metodismo: Releitura Latino-Americana (p.5-65)

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